Memórias de Vilarinho das Furnas nas fotografias do Grupo IF
Aquando da fundação do Grupo IF (Ideia e Forma) em 1976, a fotografia nacional passava essencialmente pelos concursos tradicionais de fotografia, nos quais a temática e os processos se repetiam incessantemente. As revistas da especialidade pouco aprofundavam este cenário, as exposições fotográficas pareciam não despertar o interesse dos críticos e o contacto com fotógrafos estrangeiros era praticamente inexistente. Neste panorama, o Grupo IF destaca-se e lança o desafio a todos aqueles que desejam algo mais do que os concursos têm para oferecer, insurgindo-se contra a ânsia de ganhar medalhas através de um registo já demasiado visto e gasto. O que estava em causa não era a qualidade destes trabalhos, mas o facto de não acrescentarem novos valores. Havia um domínio das técnicas, mas isso não chegava para fazer boa fotografia, uma vez que não passava de uma mera repetição já muito vista. Aliás, as mesmas fotografias circulavam por vários concursos e os próprios fotógrafos procuravam tocar nas temáticas favoritas do júri.
Obviamente, não existia lugar no circuito dos concursos para os fotógrafos pouco convencionais do Grupo IF. O seu objectivo não era um lugar no pódio, ganhar medalhas ou diplomas, mas explorar a fotografia de uma forma interventiva e inovadora, sempre com espírito crítico em relação à sociedade portuguesa. Aliás, um dos elementos do grupo, Luís Abrunhosa, explicou que a fotografia portuguesa era um reflexo da nossa sociedade. O individualismo leva a este insano espírito competitivo que caracteriza os concursos, e o imobilismo do panorama da fotografia é mais um dos sintomas do conservadorismo português.
O grupo foi fundado no dia 24 de Junho de 1976 e dele fizeram parte os fotógrafos: João Paulo Sotto Mayor, José Carlos Príncipe, Luís Abrunhosa, José Marafona, Mário Vilhena, Manuel E. A. Sousa, António Drummond, Manuel Magalhães e Henrique Araújo. A maioria continua ainda ligada à fotografia, como é o caso de João Paulo Sotto Mayor, Manuel Magalhães, Henrique Araújo e António Drummond. Estes nomes constituíram durante anos a maior referência de fotografia colectiva, por terem rompido com um contexto fotográfico clássico, conservador e estagnado. No fundo, deram forma e conteúdo à fotografia portuguesa.
No total, o grupo realizou 11 exposições, entre as quais: Comboios de Ontem, Imagens de Hoje; Imagens do Quotidiano; Ponte D. Maria Pia; e Vilarinho das Furnas.
Todos se recordam da tão polémica construção da Barragem de Vilarinho das Furnas em 1972. Apesar dos protestos dos habitantes, a barragem submergiu a aldeia, onde se vivia em verdadeira comunidade. Um juiz governava uma espécie de assembleia e o povo elegia seis homens que legislavam. Realizava-se uma reunião semanal para resolver os problemas da localidade. Este sentido de comunidade perdeu-se e os habitantes deixaram de existir enquanto todo, sendo dispersados por várias localidades do distrito de Braga.
As pessoas que ali habitaram mantêm ainda vivas as suas memórias, mas depois da sua morte o que sobrará? As ruínas. Estas são perpetuadas para a posteridade pelo Grupo IF, num conjunto de fotografias que resulta num espectáculo que tem tanto de excepcional, como de fantasmagórico. Os restos da aldeia são visíveis nos anos em que o nível da albufeira está mais baixo.
Os vários elementos do grupo vão diferindo entre si pelo tom que impõem às suas fotografias. Algumas são mais brilhantes e iluminadas, enquanto outras mais escuras, fortes e dramáticas. Vai havendo uma alternância entre os pormenores da terra seca estalada e as vistas panorâmicas que abrangem as montanhas. Em todos encontramos os elementos arquitectónicos, por vezes destruídos, outras vezes intactos… colunas que se mantêm de pé, casas pela metade, janelas e portas isoladas, escadas irregulares e muitas pedras soltas. Neste canário árido, temos fotografias lindíssimas com espelhos de água, reflexos de folhagens e vida animal.
Como espectadores, sentimos a secura, a aridez, o vazio, a estagnação da paisagem e ao mesmo tempo o silêncio e a calma do lugar. Ao vermos as fotografias quase nos esquecemos que os lugares fotografados foram outrora habitados, cheios de vida e de movimento. Contudo, se fizermos um esforço, em vez da terra seca e do amontoado de pedras, podemos ver o aglomerado de casas graníticas, alinhadas umas pelas outras, as ruelas sinuosas, o mobiliário simples e modesto, os animais, as pessoas…
Sara Pinheiro, Maio de 2010